03 junho 2014

O primeiro amor

Querido Arnaldo,

Talvez a figura física de um diário não se adeque mais aos dias de hoje em que desfrutamos das novidades tecnológicas e sofremos os dessabores da falta de tempo. Resolvi portanto, com a devida censura que o meio exige e que a minha privacidade orienta, escrever para você no meu blog, através de edições dos amores que já tive nessa vida.
O primeiro: Não necessariamente o primeiro em tudo, mas o primeiro amor, singelo, paciente e genuíno até o primeiro chifre.
Embora a pessoa fosse grande, todos o conheciam no apelido diminutivo. Não se pode simplesmente culpar o outro quando se deixa enganar. O primeiro amor de um nem sempre é o primeiro amor do outro, ainda mais quando se trata de descobertas, de emoções nunca vividas.
Eu, desde os primórdios apreciadora das qualidades literárias e das habilidades da escrita, me encantei pelo belo conjunto formado por duas canelas finas, mãos de cavaleiros do zodíaco e uma cabeleira vistosa.
Meus suspiros surgiam a cada exclamação e a cada reticência que remetia à eternidade do "nosso" amor que só era "meu".
Mas acreditar durante um pequeno período de tempo da minha adolescência, que eu não sentia aquilo tudo sozinha era a melhor opção, ao invés de acreditar que as cartas que amor que eu recebia dele era mero ensaio de dramaturgia.
Por ter a habilidade de atrair situações exóticas para minha vida, meu primeiro amor era quase um caso Romeu e Julieta contemporâneo. Pela força do destino nos separamos sem sequer nos despedirmos, e eu chorei meses pela dor febril de ter que me distanciar do meu primeiro amor, que eu achava que era eterno.
Juras de amor e planos para a maioridade eram os temas das cartas que trocamos mesmo após minha vinda para a Capital.
Até descobrir, que dentre tantas, ele escolheu uma magrela do 2º grau de família influente na cidade, mas não sem antes ter apreciado a também febril experiência de pegar uma das minhas melhores amigas.
Durante anos nos falamos sem cogitar a possibilidade de um reencontro: ele me achava engraçada.
Hoje, depois de 14 anos, nada mais revoltante que carregar umas cicatrizes no corpo e pensar: mas eu nem cheguei a fazer amor com ele.
Esse foi Arnaldo, um resumo lúdico, sem os detalhes tristes e dramáticos do meu primeiro amor.

3 comentários:

HerrBrandt disse...

Bonito. E mais bonito ainda por saber que houve tristeza. O bom é que passou, porque nenhum alegria é boa o suficiente para durar.

Sempre Sempre disse...

Por que você não nominou seu diário de chokkito?
“Parece que sofreu um bocado”. Mas já parou pra pensar que ele pode ter pensado que você estaria ”lá” esperando, e quando não a encontrou decidiu seguir a vida, buscando te esquecer, mas o primeiro amor nunca esquecemos, e sempre levamos um sentimento verdadeiro, mesmo que tenha que fingir que nada nunca aconteceu. Mas pode ter certeza, te amar pode ter sido a melhor coisa que o aconteceu, pois até então, ele não sabia o que era sentimento de verdade…
Pode ter te amando tanto, mesmo que seja de longe, com o pensamento puro e verdadeiro, sei que é verdadeiro, por serem tão jovens na época e isso não formulava ali pensamento só em sexo, mas sim em amor, e mesmo assim com tanto amor chegou uma hora em que ele devia te esquecer.

Patricia Alhures disse...

A vida tem o hábito de me surpreender, assim como eu tenho o vício de deduzir a opinião alheia com base na interpretação dos fatos. Numa época de pouca maturidade e poucas alternativas de meio de comunicação, um mal entendido pode reescrever uma história, pode até mudar o curso de uma vida. Pode inclusive plantar na cabeça de uma aprendiz de poeta a ideia distorcida do que viria a ser amor, se ela soubesse com certeza o que é amor.